Saudosa Letargia

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Saudosa Letargia

Às minhas olheiras, fiéis companheiras…

Postado originalmente em: rascunhonopapel.com.br

Trilha Sonora

Letargia (s.f.) é a perda temporária ou completa da sensibilidade e do movimento por causa fisiológica ainda não identificada, levando o indivíduo a um estado mórbido em que as funções vitais estão atenuadas de tal forma que parece estarem suspensas, dando ao corpo a aparência de morte.

PURGATÓRIO
Sempre se inicia com um singelo ruído de fundo. A mente clama por uma trégua, breve que seja, enquanto o subconsciente negocia com o próprio sono. A respiração torna-se pesada, em largas bufadas de suspiros etílicos, e os olhos inchados não mais filtram a meia luz. A cabeça passa a pender para o lado, ao passo em que o corpo se assenta na poltrona rija.

O ruído desbrava minha mente, e se molda em minha sede do impossível. Nos dias bons, ouço risadas. Nos dias ruins, enxergo semblantes, e logo percebo que sou cativo de minhas próprias escolhas. Entretanto, na maior parte dos dias, me encontro no limbo. Um estado da irrealidade localizado no vértice da fatiga, entre a consciência e a inconsciência, onde chamo por memórias que nem sempre me atendem. E, quando atendem, zombam de minha própria imbecilidade.

Luto contra minha própria ansiedade para que não me impeça de visita-la. O sono se faz presente, e traz consigo a esperança, sádica, pronta para me torturar. Antes, a esperança de acordar e saber que tudo não passou de um sonho. Agora, a esperança de vê-la novamente em um de meus poucos sonhos e, com um pouco de sorte, sentir novamente o aroma que se traduz em amor. Estes são os dias bons.

Ah, os dias bons. O ruído torna-se absoluto, e consigo enxerga-la ao fundo. Ela, bonita, e nossos quatro pequenos, todos sorridentes e eufóricos, frutos de nosso amor. Às vezes, ouço também o barulho da praia, sinto a brisa tocar minhas canelas desnudas, e até mesmo o sol, um pouco morno, banhando minha pele. Contento-me com este cenário, na fronteira entre lembrança ou expectativa, e tento degustar de tudo o que ele me dispõe. Antes, chamava por ela, e esperava ouvi-la, que fosse mais uma só vez. Agora, me satisfaço em saber que, ao menos ali, eles ainda esperam por mim.

Ao menos ali, tenho um lar para ser recebido.

Entretanto, infelizmente, eu sempre acordo e, para minha surpresa, ela não está lá. No lugar dela, um copo bem gordo, porém fino, com um blend de whisky e melancolia. Meu estômago inflama, e travo o vômito na garganta. Mais um gole bem dado, e me ponho a escrever, tentando reviver um lado de mim que há muito se foi. O mesmo lado pelo qual ela se apaixonou.

Mais uma folha em branco, e mais um cabeçalho rabiscado.

Minha querida depressão,
Veja, eu não como bem.
Desde sexta só vomito,
Mas só água, é o que tem.”

Por incrível que pareça, depois de todo esse tempo, as pessoas ainda se encantam com minhas escritas. Talvez de forma sádica, banhando-se nas ideias amarguradas de um velho a definhar. Entretanto, ninguém critica ou revisa, mas apenas publicam e me observam deixando-lhes ricos. Já deixei que erros ortográficos e de concordância passassem impunes, de propósito, apenas para testar a competência de meus editores. Entretanto, há um momento na vida de um homem em que seu nome vale mais que a própria competência.

Cores fracas, riso torto
Coração apavorado
Revivendo o que está morto,
Sonhador desesperado.”

Mercenários imundos, estúpidos, iletrados, sádicos, malditos. Esbaldam-se no desgosto de um moribundo. E pensar que já fui como eles, admirando a agonia de autores que me precediam. Tentei botar coração onde todos colocam dinheiro, e acabei me tornando uma fonte de amargura para pessoas sem problemas o suficiente. Sequer param para pensar no que os autores sentiram enquanto vomitavam suas mágoas em folhas de papel. E, qual é o problema, se te render um milhão de compartilhamentos, não é mesmo?

“Minha querida ansiedade,
Veja, não me fazes bem.
Desde sexta só me arranho,
E me perguntam o que é que tem.”

Não, não é bonito. Não é para ser bonito. É um aviso, seus imbecis. É um recado para que não errem como eu errei. Mas não entendem, e jamais entenderão. Pessoas que entortam os lábios para qualquer merda que lhes apresentam em versos. Mal sabem eles que a arte não é um fim, e sim um meio de transmitir sentimentos.

“Cores fortes, riso tenso
Esperança é um breu
Revivendo um momento
Que sequer aconteceu.”

E continuo a transmitir os meus, na expectativa de que, em algum lugar, num quarto escuro, um homem sinta o que estou sentindo, e se prive de fazer a escolha errada. Deus, faça com que ele entenda. Nunca saberei de quem se trata, mas ele fará a coisa certa, e jamais perderá todos que perdi. E, daqui a alguns anos, ele estará feliz e satisfeito, envolto em três gerações abaixo de si, e ele saberá, lá no fundo, que fez a coisa certa.

Dono do meu devaneio,
Quinze dias tu me deu
E o meu maior anseio
É acordar com um toque seu.”

O que eu deveria ter feito, mas não o fiz, e, portanto, estou sozinho.

REDENÇÃO
Imerso em devaneios, sufocado pela própria tristeza, me encontro sentado numa mesa de bar. Um dos ambientes mais depressivos para um meio de semana, penso comigo, com quatro ou cinco gatos pingados afogando suas angústias em copos meio rasos.

Me limito a fitar a mesa à minha frente. Tiro do bolso o papel antes escrito, posiciono a caneta logo abaixo do último verso, e aguardo para registrar parte do que sinto. Entretanto, e talvez felizmente, a virtude não aprecia ambientes como aquele, e eu sempre soube disso. Dessa forma, me ponho a aguardar, sem que o mínimo de atenção seja dada a qualquer murmuro que venha dos outros ali presentes.

E, como esperado, um homem se senta à minha frente.

Levanto os olhos de forma penosa, sem orgulho de minhas olheiras, somente para encontrar uma pequena dose do que já fui.

– Como está a sua mãe? – Digo com certo pesar, e travo o enjoo e minha garganta desgastada.

– Casta, como sempre. – Meu filho responde, e percebo tristeza em sua voz – Se antes ia à igreja todo domingo, hoje é raro quando não faz alguma prece.

Fitei seu queixo afiado, incapaz de olhá-lo nos olhos.

– Belo Deus, o que ela cultua. – Disse com ironia.

– Pai… – Tentou me interromper, mas sem sucesso

– De todos os deuses a serem escolhidos, ela opta por esse maldito vingativo. – Um suspiro de satisfação escapa de minha garganta.

– Deus sabe o que faz, pai. – Respondeu dotado de certeza – Ele não comete erros.

– O livre-arbítrio foi um erro. – Respondi de imediato

– Pai, por favor…

– É a mais pura verdade. – Prossegui – É como dar poder de escolha a um bando de crianças mimadas. Simplesmente ridículo.

Por mais que o tempo tenha passado, e a glória talvez esquecida, eu ainda me orgulhava quando conseguia ironizar algo de forma esperta. Entretanto, a satisfação se esvaia ao lembrar de nossas risadas. Nosso humor era ácido, certeiro, sem rédeas, e apenas nosso.

– Ela nunca saiu com nenhum outro homem depois do senhor. – Tentou me consolar, e retruquei com acidez

– Outro erro. É o que ocorre quando você decide seguir uma doutrina ruim.

– Pai, podemos não entrar nesse assunto…? – Notei desgosto em sua voz. Lambeu o lábio inferior, disposto a tratar daquilo para o que tinha vindo.

– Ela merece alguém que zele por ela, e que a faça feliz.

– Ela não quer nada disso, pai. – Retrucou – E todos nós zelamos por ela o tempo todo. Ela entende que seu propósito nessa vida já foi cumprido…

– Não há propósito na vida. Ninguém existe com um propósito. Ninguém pertence a nenhum lugar, e todos nós vamos morrer. – Sempre fui excelente em dar murro em ponta de faca.

– Não estamos aqui para debater sobre a vida e o universo. – Tirou do casaco um envelope marrom – Eu preciso que o senhor assine.

Me ofendi.

– Por quê? Faz diferença? – Não consegui olhá-lo nos olhos – Já estamos divorciados há anos, e não a vejo há mais tempo do que consigo me lembrar.

Observei-o suspirar profundamente. Numa breve faísca de empatia, me pus no lugar de meu filho, assistindo ao pai se recusar a dar à sua mãe o que lhe é de direito. Agi como os velhos que sempre repudiei. Neste momento, travei o choro à garganta. Cego de orgulho, tentei prosseguir:

– Deixe como está. – A voz chorosa se fez presente – De qualquer forma, eu não tenho muito mais muito tempo.

– Pai, por favor, entenda… – Ele tocou minha mão, e lágrimas surgiram.

– Eu só te peço isso, filho… – Engoli a tristeza, que rasgou minha garganta – Eu já sofri o suficiente. Eu perdi a honra, perdi o respeito dos meus filhos… – Finalmente levantei os olhos, aos poucos, de encontro com os dele – …só não me faça perder a mulher da minha vida.

Ao fita-lo nos olhos, enxerguei-a me observando. A tristeza escapou e, sem sucesso, tentei engolir todo o pesar de uma só vez. Lágrimas brotaram em abundância, e desabei sobre a mão de meu filho caçula.

– Eu ainda a amo. – Engasguei em minhas palavras enquanto sentia o sabor de minhas próprias lágrimas – Amo-a com todas as forças, e de toda minha alma. Diga para ela, por favor.

– Por favor, pai, não torne isso mais difícil do que já está sendo… – Apertou forte minha mão, e olhei de novo para seus olhos.

– Eu errei, filho. – Finalmente admiti, derrotado – Eu joguei tudo fora por prazeres mundanos. Eu sei que errei.

– Ninguém é obrigado a perdoar traições, pai. – A realidade me chocou como um murro certeiro que desloca a mandíbula – Ela não vai voltar atrás.

– Um homem não tem o direito de errar? – Supliquei – Não é possível! Foram infinitos momentos maravilhosos que vivemos juntos!

– E o senhor jogou tudo fora em função de outras mulheres. – Novamente me acertou, e senti meu coração apertar por um breve segundo.

– Eu… eu errei. – Fitei novamente a mesa, envergonhado – Errei onde não deveria ter errado. – Olhei novamente para ele, e me enchi de orgulho – Não consegui ser homem o suficiente, mas sei que vocês serão melhores do que eu.

Observei meu filho engolindo saliva. Sorri para ele, certo de que não me acompanharia no choro, quando lágrimas marcaram sua face.

– Me dê logo o papel. – Ordenei, estendendo a mão esquerda

Ele tirou do envelope os documentos referentes ao divórcio, e me entregou-os em mãos.

Assinei.

– E limpe essas lágrimas. – Disse a ele, devolvendo-lhe os documentos – Homem de verdade não chora.

– É aí que o senhor se engana, papai… – Guardou-os novamente no envelope – Homens de verdade choram sem se preocupar em cobrir o próprio rosto. “Não temos nada a esconder”, é o que o senhor sempre nos ensinou, não é mesmo?

Neste momento, tive a certeza de que, ao menos na criação de meus filhos, eu havia acertado em cheio. Tive orgulho, admito, mas não de mim, e sim do homem que ele havia se tornado.

Voltei novamente minha atenção ao rascunho de antes, com o poema incompleto.

– Posso te pedir uma última coisa?

Agarrei a caneta, posicionei-a logo abaixo da última estrofe, e me pus a escrever.

“Minha querida depressão,
Eu não sei mais distinguir
O que é real e fantasia,
Se só anseio por dormir.”

– Claro. – Me respondeu com um sorriso no rosto – Qualquer coisa.

Um turbilhão de memórias veio à minha cabeça. O primeiro beijo. O doce odor de seus cabelos. Seus olhos abrindo-se lentamente após acordar. Deus, como eu amava observá-la acordar! Momentos infindáveis, lembranças calorosas da perfeição que criamos em nosso próprio universo.

Continuei escrevendo, cuidando para que as lágrimas não borrassem a tinta ainda molhada.

“Dormir fundo, dormir bem
Como quando éramos um.
Eu te chamo, e tu não vem,
Cinco dias de jejum.”

– Você pode entregar isso para ela? – Dobrei o papel e o entreguei com a certeza de que jamais seria visto por olhares diversos.

– Posso. – Tomou o papel de minha mão e prontamente guardou-o no casaco – Claro que posso.

Abracei-o com força, e notei que as pessoas ao redor nos observavam. Algumas contentes, e outras emocionadas. Dei de ombros.

– Você tem os olhos da sua mãe. – Fitei-os profundamente, como que pela primeira vez – E são os mais maravilhosos que eu já vi. – Um sorriso de orgulho se ascendeu na face de meu filho, e, depois de tanto tempo, me senti amado mais uma vez.

A vida é feita de lições, e cabe a nós não repetirmos os erros dos menos afortunados. O amor não deve ser entendido, negociado, digerido ou saciado. O amor deve ser sentido e, com muita cautela, degustado. Creio que, ao menos nesta vida, eu tenha entendido do que se trata o amor, e estou satisfeito com isso.

Apesar de tudo, ainda há uma coisa que me tira o sono.
Dizem que é a última que morre, e, de fato, creio que morrerei bem antes dela própria.

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Virtuoso



Virtuoso


Postado originalmente em: rascunhonopapel.com.br

PRÓLOGO
O fundo escuro, com um único feixe de luz desferido logo ao centro do palco. Dedos dançavam para com a melodia que encantava os espíritos de cada um ali presente. O som de couro sendo contraído, a audiência se espremia em suas poltronas, ansiosos pela próxima virada em duas oitavas de Ré sustenido maior.

Murmuro.

Lágrimas.

E, enfim, o desfecho.

Ao centro do palco, observava-se um homem imóvel, frente a um piano que ressaltava sua própria competência. Olhou para o teto, fitando diretamente a luz que lhe banhava, e cerrou os olhos. Aspirou fundo, umideceu os próprios lábios, engoliu saliva e, enfim, levantou-se.

Antes mesmo que seus joelhos fossem estendidos, a multidão explodiu em aplausos. De idosos a infantes, de graduandos a doutores, de religiosos a descrentes, não havia um só espírito que permanecesse intocado em face de sua sinfonia. Incontáveis palmas, assovios longos, risadas expressivas e, bem lá no fundo, os gemidos de choro, pertencentes aos mais comovidos com o concerto.

Por um breve segundo, fitou o público em êxtase. Não enxergava indivíduos singulares, mas sim a audiência como um todo, anunciando que seu trabalho havia sido realizado com a devida maestria que se esperava de um homem como ele. Jamais seria capaz de conhecer cada ouvinte ali presente, mas sabia exatamente para quantas pessoas ele havia se apresentado naquela noite, bem como em todas as anteriores.

Ainda sem expressão, caminhou até as bordas do palco, onde fez sua reverência e, com a cabeça ainda baixa, deixou finalmente que um singelo sorriso tomasse conta do canto direito de sua boca.

Pela primeira vez em meses, a Filarmônica de Berlim estava completamente lotada.

DILIGÊNCIA
No camarim, três pessoas cuidavam de seus afazeres. Um carpê bege tomava conta de toda a sala, enquanto duas poltronas de veludo, ambas em bordô, contrastavam com uma cadeira de mogno escuro, logo em frente ao espelho. A porta se abriu e, de lá, uma figura irônica se pronunciou.

– Completamente lotada! – Ele exclamava – Completamente! Ouviram? – E gesticulava com ambas as mãos – Não havia espaço para mais ninguém! Nem mesmo se alguém como, sei lá, a  Angela Merkel tivesse vindo, teríamos conseguido encaixá-la aqui.

Os três ali presentes levantaram seus olhos e suspiraram com certo alívio. Um deles, ao fundo, riu.

– E foi o penúltimo show dessa turnê. – Disse Mila, sentada numa das poltronas bordô – Já podemos pensar nos contratos para a próxima temporada. Hoje cedo me ligaram de Boston, fizeram uma proposta excelente para a…

– Menos, Mila, menos! – Ele a interrompeu, fechando a porta e finalmente adentrando a sala – Não precisamos de papos técnicos numa hora dessas! Vamos lá, onde está nosso garoto? Nosso motivo de orgulho…?

– Acalme-se, Elliott. – Eva disse, em tom sereno, apoiando seus pés na mesa de centro – Não acho que vamos vê-lo ainda hoje. Magnus está exausto, e deixou bem claro que não quer ser incomodado.

– Ah, como em todos os outros dias. – Elliott cruzou os braços, deixando a coluna reta – Vamos comemorar por ele, que tal?

– Não sei vocês, mas eu tenho que dormir. – Conrad se pronunciou, levantando-se de seu assento e pondo no bolso seu celular – Estou tão exausto quanto ele, e trabalhamos duro nos últimos meses. – Então, pôs-se a caminhar em direção à porta pela qual Elliott havia acabado de entrar

– Acho que eu também vou. – Dessa vez foi Eva quem se levantou, fechando o laptop em seu colo e guardando-o em sua bolsa – Amanhã é o grande dia, o encerramento da turnê, e Paris estará esperando por nós. – Olhou para Elliott, que levantava uma de suas sobrancelhas em reprovação ao resto do grupo

– Pessoal, sério? – Elliott exclamou com desgosto – Quando é que teremos a chance de comemorarmos o sucesso de nosso trabalho, juntos, aqui em Berlin? Pensem nas cervejas! Nas garçonetes de babado!

– Qualquer dia depois de amanhã. – Mila disse em tom irônico, levantando-se da poltrona – Assim que a turnê acabar e que estejamos todos bem descansados e contentes.

– Até você, Mila? E o Magnus, nem pensar, né…? – Ele abaixou os ombros, em sinal de derrota, e se aproximou da cadeira de mogno em frente ao espelho.

– Magnus está no banho, e está mais cansado que todos nós. – Foi Mila quem respondeu, enquanto Eva retirava-se da sala – Não é fácil lidar com pessoas após um espetáculo como aquele.

Elliott apoiou os braços no assento da cadeira e apenas murmurou. Varreu a mesa com seus olhos, encontrando interesse apenas na maleta de Magnus, que se encontrava apoiada na quina de sua mesa de camarim. Cerrou os olhos, tossiu de leve, e puxou a maleta para si.

– Eu realmente não faria isso se fosse você. – Mila disse, apoiada na porta. – Você sabe como ele é, extremamente sistemático, e realmente detesta que mexam em suas coisas. – Levantou as duas sobrancelhas, apesar dos olhos sonolentos

– Sim, eu sei. – Elliott disse, olhando-a por cima dos ombros enquanto pousava a maleta no assento da cadeira de mogno – Vou deixar tudo meio pronto para quando ele voltar, e já vamos para o hotel, ok?

– Sério? – Ela segurava no trinco da porta – Você quem sabe, estamos indo agora. Boa noite, Elliott. – E fechou-a

– Boa noite, Mila.

– Ah, a propósito… – A porta abriu novamente – …esse seu suéter não combina com essas jeans rasgadas. Não aqui, e não em pleno século vinte e um. – Ela fez uma breve pausa, aguardando respostas, mas não houve nenhuma – É isso. Boa noite. – E fechou novamente a porta

Elliott suspirou, sorriu, levou a maleta até a mesa de centro e pôs-se a balbuciar.

– “…não combina com essas jeans rasgadas.” – Ele repetiu em meio a risadas – Quem ela pensa que é? Mal chegou aos trinta e já fala como alguém que não transa há décadas. – Pôs-se a abrir a maleta de Magnus, e começou a remexê-la

A maleta era singela, de couro preto, e não possuía divisões. Um relógio de pulso, um caderno de anotações, um gravador, moedas soltas, um suéter fino e, finalmente, uma caixa de papelão. Uma caixinha simples, de papelão branco envelhecido e com algumas manchas de café. Possuía não mais que vinte centímetros de largura por oito de altura.

– Uma caixa? – Ele posicionou-a ao lado de seu ouvido e a chacoalhou suavemente. Ouviu papéis colidindo com as paredes da caixa, e não mais que isso – Por que é que o grande Magnus levaria consigo, para cima e para baixo, uma caixinha de papelão? – Disse em tom irônico – O que será que…

– Nada muito relevante, na verdade. – Uma voz masculina se fez notar, e Elliott, num susto abrupto, se estremeceu e deixou com que a caixa caísse. – Ei, tudo bem? – A voz soou novamente, grave e juvenil.

Da porta do banheiro, junto a uma nuvem de vapor, Magnus adentrava a sala.

– Magnus?! Oi! – Elliott se inclinou rapidamente, apanhando a caixa e pondo-a novamente na maleta – Estava arrumando suas coisas para quando você estivesse pronto para irmos! E pelo jeito, está! Vamos para o hotel?

– São só anotações, Elliott. – Magnus sentou-se ao lado dele – Pode ler se quiser. É só coisa velha, pra ser bem sincero.

– Não, não, não! – Elliott levantou-se num pulo, e correu para recolher as poucas coisas que faltavam – Vamos logo com isso, que amanhã será um dia cheio!

– De todas as pessoas, logo você está animado assim para trabalhar? – Magnus riu – Quem diria.

– Mas é claro! – Urrou, já no outro lado da sala – Amanhã é o grande dia! O ato de fechamento! Não há uma crítica negativa sequer, Magnus, UMA! Nós estamos construindo história aqui, meu caro!

– Mais um concerto, Elliott. – Magnus disse calmamente – Nada além disso.

– Estou pronto. – Elliott terminara de fechar a mochila, e agora fitava o amigo numa das poltronas. – Vamos?

– Viu… – Magnus fitou o teto, como de costume – …você acha que… – Fez uma pequena pausa, em tom de insegurança – …estamos mandando bem?

Elliott não teve resposta, e se manteve em silêncio por alguns segundos.

– Isso… é algum tipo de pergunta retórica…? – Levantou uma das sobrancelhas, confuso – É claro que mandamos bem. Você é o pianista mais virtuoso deste mundo, desde o próprio Schubert. É óbvio que estamos mandando bem! Você não ouviu a multidão te aplaudindo?! A casa estava cheia! Cheia!

– Desculpe. – Magnus respondeu, de olhos fechados – Eu só queria uma opinião.

– Vamos, vamos. – Elliott prosseguiu – Não há mais nada pra fazer aqui.

– Pode ir. – Replicou breve – Eu vou depois.

– Como é?

– Pode ir para o hotel, é só meia quadra daqui. – Magnus disse em tom solene – Eu vou mais tarde.

– Mas… você não precisa descansar?! – Elliott urrou, incrédulo

– Preciso. – Abriu os olhos, pendendo levemente a cabeça em um de seus ombros – Mas tem algo que quero fazer antes disso. – E olhou para Elliott

– Tem certeza…? – Levantou novamente uma das sobrancelhas

– Tenho.

– É você quem sabe.

E saiu pela porta.

FONTE
Elliott recém pagara a conta naquele bar quando tropeçou nas próprias pernas e despejou-se ao chão. Derrubou o copo junto consigo, banhando-se por completo em cerveja puro malte. Risadas se tornaram notáveis, e pessoas ainda presentes no bar observavam e julgavam a cena corriqueira.

– É só o que eu precisava. – Levantou-se, tirando poeira de seus braços encharcados. – Que merda.

Tateou o celular e a carteira, bem como suas chaves. Fitou as garotas com quem conversara as últimas duas horas e meia, que viraram o rosto em deboche.

– Bêbado. – Uma delas disse, rindo em seguida.

– É, realmente não tem mais nada pra mim aqui. – Pôs-se a andar pela calçada estreita, vislumbrando a vida noturna de Berlim.

As ruas estavam serenas, e Elliott caminhava em passos descontraídos, esporadicamente tropeçando em si mesmo, e gargalhando da própria situação.

– Anos de evolução! Anos! Para quê? – Ele discutia consigo mesmo – Para isso! – E gesticulava sozinho, apontando para os próprios pés.

Andou por cerca de dez minutos. Apesar da infinidade de monumentos e construções, Elliott caminhou olhando para o céu, e se deleitou em seus mais profundos e imaturos pensamentos de garoto, onde se questionava sobre a existência da vida, bem como de seus objetivos. Pensou sobre sua vida até aquele momento, e sobre como tudo deu certo “meio que  sem querer”. Considerou-se um homem de sorte, e se sentiu mal por dispor de seu tempo livre daquela forma.

Finalmente encontrou-se ao lado da Filarmônica de Berlim, a apenas meia quadra do hotel. Observou-a com calma, inclinou a cabeça, pensou por um ou dois momentos, quando finalmente decidiu se aproximar.

Caminhou até a porta da qual havia saído.

O som de grilos ao fundo.

Engoliu saliva, forçou os maxilares e, por fim, girou a maçaneta da porta, que se abriu.

– Aberta? Uma hora dessas?! – Disse para si mesmo, enquanto observava o corredor escuro. – Será que esquecera… – E foi interrompido por um ruído abafado que se originava na própria Filarmônica.

Elliott se esgueirou pela porta e fechou-a com cuidado. Desceu pelo corredor em completo silêncio, iluminando o caminho com a tela acesa de seu celular. O ruído, cada vez mais evidente, tratava-se de uma música ouvida por ele naquele mesmo dia. Cada passo mais próximo do palco, cada nota a mais que soava, e o seu coração pulsava forte.

Quando finalmente chegou ao palco, deparou-se com poltronas vazias, o piano aberto, e Magnus tocando mais uma vez a famigerada Serenata de Schubert-Liszt, responsável pelas inúmeras aclamações na noite anterior.

Voltou o celular para si, e se assustou ao perceber que eram duas e quarenta e oito da manhã.

Observou o amigo por mais alguns instantes e retirou-se de consciência pesada. “Enquanto eu jogo meu tempo fora, ele se dedica.” Pensou, caminhando novamente no corredor escuro e deixando que a sinfonia se perdesse nos ruídos de fundo.

Passou pela porta do camarim, onde trocaram palavras pela última vez. “Por que não?” Pensou, e adentrou o local, encontrando tudo exatamente como estava antes de sua saída. Levou seus olhos até a maleta de Magnus, intocada, e caminhou faminto até ela.

Agarrou a caixa com as duas mãos, removeu a tampa, e deparou-se com uma pilha de papéis dos mais variados formatos e cores. Alguns rasgados, outros sujos de café, outros rabiscados e meio amassados. Todos escritos à mão, e com data expressa.

Tirou o primeiro deles da caixa, datado de oito anos atrás.

13 de Abril de 2009

Hoje, meu pai me disse que se arrepende de me ter como filho. Disse que perco tempo demais com coisas inúteis, e disse que sou um investimento sem retorno.”

Guardou, e tirou o próximo.

27 de Junho de 2010

Hoje fui chamado de burro por minha professora de biologia. Ela disse que eu jamais serei aceito numa boa universidade, e recomendou que eu fizesse aulas particulares todas as tardes.”

E o próximo.

14 de Fevereiro de 2010

Fui agredido por pessoas da minha sala por ter reclamado de ficarem chutando minha cadeira. Não entendo por que me tratam assim, sendo que não faço mal algum para eles.”

E o próximo.

18 de Janeiro de 2011

Anna fez aniversário no fim de semana, e todos foram convidados, menos eu. Não sei o que ela vê em todos eles.”

E o próximo.

3 de Abril de 2011

Eu sou uma pessoa boa. Eu sei que sou uma pessoa boa. Por que é que ninguém gosta de mim? Por que?”

E o próximo.

“28 de Setembro de 2012

Talvez não haja lugar para mim. Talvez tudo o que amo seja realmente um sonho idiota. A hipótese de suicídio se torna cada vez mais viável.”

E o próximo.

“15 de Março de 2013

Não fui aceito em nenhuma faculdade. Eu realmente não me importo mais. Me recuso a viver uma vida que não escolhi para mim. Não vou mais me lamentar.”

Elliott guardou os papéis junto aos inúmeros não lidos.

Fechou a caixa.

Guardou-a.

E, em sua mente, deixou que a sinfonia soasse por toda a madrugada.

VIRTUDE
Os dedos de Magnus dançavam pelas teclas de marfim, dominando um Steinway & Sons que possuía pelo menos o triplo de sua idade. Seu espírito ecoava por cada centímetro da Filarmônica de Paris, onde a multidão sentia o impacto de tão fabulosa interpretação artística. Alguns desabavam em lágrimas, esforçando-se para abafar seus soluços. Outros espremiam-se em suas poltronas, se deliciando com cada virada em cada nota devidamente escalada.

No palco, nada além da própria virtude, desolada, porém eternamente vitoriosa, e devidamente orgulhosa de seu detentor.

O silêncio.

A expectativa.

E, enfim, o desfecho.

A multidão explodiu, todos de pé, com aplausos, soluços, risadas, abraços, urros e assovios. Dos mais graves até os mais agudos, dos mais solenes até os mais majestosos, dos mais sérios até os mais alegres, estavam todos comovidos com a história que Magnus acabara de narrar.

Ele se levantou, fitando o público por um breve segundo. Caminhou até a borda do palco e, como de costume, fez sua reverência. Os aplausos explodiram novamente, e um singelo sorriso se fez presente no canto direito de sua boca. Finalmente levantou-se, ainda sorrindo, e retirou-se do palco.

Ainda na filarmônica, era aplaudido e exaltado por qualquer corredor que passasse. Cumprimentou cada um que andava até ele, dando autógrafos e posando para fotografias com diversos funcionários dali. Caminhou até o camarim, onde adentrou sozinho, recusando-se comemorar com os outros.

Minutos se passaram, e ele apenas fitava o teto, sentado, entrelaçando os dedos de ambas as mãos sob seu estômago. Ouviu a porta abrindo, e se arriscou deduzir:

– Elliott?

– Sou eu. – Elliott respondeu, adentrando a sala e fechando a porta.

Magnus sorriu, orgulhoso de si mesmo.

– Ah, então você está feliz? – Elliott disse em tom perspicaz

– Sim, eu acertei. – Magnus disse, satisfeito

– Sem dúvidas, acertou. – Elliott replicou – Não teve uma só nota fora do tom. – E notou Magnus levantando as suas sobrancelhas, ironicamente demonstrando surpresa – Mas… acho que você não precisa de mais uma pessoa inflando seu ego, não é mesmo?

– Ah, tanto faz. – Magnus respondeu – Agora temos alguns bons meses para descansar, e estou ansioso para pôr no papel umas ideias novas.

– Não cansa de trabalhar, hein? – Sentou-se na poltrona da frente

– Quando seu trabalho é gerar estes sentimentos no interior de cada pessoa que se preza a prestar atenção em ti… – Fez uma pausa, e olhou para a mesa a sua frente – …realmente não tem como se cansar.

– De qualquer forma, não é por isso que estou aqui. – Elliott olhou fixamente para Magnus – Eu vim te pedir desculpas.

– Desculpas? Por que? – Magnus sorriu com certo esforço. Seus olhos estavam pesados, mas buscava demonstrar atenção para o que Elliott tinha a dizer

– Ontem. Eu mexi na sua caixinha e li alguns dos bilhetes. – Elliott cerrava os punhos, aflito. – Foi quebra da sua privacidade. Me perdoe por isso.

– Não tem importância. – Respondeu despreocupado, e notou certa tensão se esvair dos ombros de Elliott – Ontem mesmo eu disse que poderia ler. O que você achou?

– É… terrível. – Ele demonstrava tristeza, enquanto Magnus exalava despreocupação – As coisas que fizeram contigo foram monstruosas. Essas pessoas deveriam ser punidas. Mas… – E pausou por alguns segundos – …por que é que você carrega essas coisas contigo? Não deveria deixar isso tudo no passado? Todas essas lembranças ruins?

– Ah, meu caro Elliott. – Soava como um pai que narrava verdades a seu filho – São lembranças ruins, sim. De um Magnus que não sabia qual era seu lugar no mundo. São também um registro de tudo o que as pessoas comuns podem ser, incluindo sua própria família. Não é bonito, eu sei que não é, mas é a realidade. – Pausou momentaneamente, e fitou o fundo dos olhos de Elliott – Não me entenda mal, eu amo minha família. Mas, diferente dos outros, eu tive que ensinar a mim mesmo do que se tratava o tal amor que tanto diziam. Meu amor é pela arte, e a música é a forma que encontrei de manifestar esse sentimento. É a mais pura de todas as artes, a primeira, e minha fiel companheira desde sempre. É o que me motivou a continuar vivendo.

–  Mas pra quê guardar isso?! – Urrou com certa ogeriza – Aquelas pessoas não tinham o mínimo apreço por você até pouco tempo atrás! Você ganhou! Você está aqui, e quem são eles? Não são nada!

– Para que eu não me esqueça, meu caro confrade… – E sorriu com satisfação – …quem eu era, e de onde eu vim. Afinal de contas, por mais que digam que sou coisas demais, mas eu sou nada além de um caipira que perdeu tempo demais estudando as coisas que lhe davam borboletas no estômago. O que aprendi com a vida é que, na maioria dos casos, as pessoas vão falhar em seus objetivos. Jamais realizarão seus sonhos. Trágico, não é mesmo? – E riu de forma irônica

– Sem sombra de dúvidas.

– E as vezes, bem de vez em quando, o sonho de uma pessoa é grande demais. – Disse Magnus – Maior até mesmo que as barreiras que o mundo lhe impôs. Sua alma clama por combustível e, se a pessoa desejar o suficiente, seu espírito se ascenderá em resplendor infinito. Este brilho, meu caro Elliott, é o que eu chamo de virtude. E se você a detém, meu caro… você tem tudo que as pessoas mundanas jamais imaginariam ter: Apenas o que nos faz felizes de fato.

– Sinto que isso deveria ser óbvio para todos, mas não é. – Elliott disse, pasmo – Gostaria de conhecer mais pessoas virtuosas.

– Virtuosas? Não, não gosto de chamá-las assim. Prefiro dizer que são…

Pausou,

Umideceu os lábios,

Engoliu saliva,

E finalmente disse:

– Sonhadores.

Elliott levantou-se sorrindo, completamente motivado. Magnus havia estimulado seus sonhos há muito esquecidos, e deleitou-se com o sentimento de renovação que tomara conta de seu corpo.

Magnus encontrava-se sentado na mesma posição, com os dedos entrelaçados sob seu estômago, e observou o amigo se levantar de forma enérgica. Ao menos naquele dia, teve a certeza de que estava exatamente onde deveria estar.

Elliott recolheu suas coisas, reverenciou Magnus, e deixou que o amigo finalmente se enclausurasse para o tão merecido descanso.

I – Tardes de Abril

belle

Doce Fantasia

I

Tardes de Abril

Era fim de tarde quando Belle ouviu passos aproximando-se de sua porta. A luz alaranjada do sol permeava as cortinas entreabertas e projetava-se majestosa em sua parede, avivando a pouca madeira que constava nas bordas de seus quadros ali presentes. A atenção da garota optou por prender-se ao belíssimo espectro de cores que abrangia todo o horizonte, desde as pequenas colinas onde os olhos ainda alcançavam, e até mesmo ao grande freixo que encontrava-se diretamente à frente de sua singela casa, um pouco depois do cercadinho, mas ainda antes dos arbustos de mirtilos.

Os passos, por segundos, tomaram sua atenção, e ela olhou de canto de olho para sua porta. Percebeu que eram curtos e firmes, e concluiu que fossem dos tamancos de sua mãe. Restava-lhe pouco tempo para admirar a paisagem, e ela sabia disso. Assim, deixando que os passos se perdessem nos pensamentos do fundo, tornou a fitar o horizonte tomado pelo crepúsculo.

E, como em todas as tardes, o horizonte fitou-a de volta.

Páginas, Conquistas e Social Media

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Páginas, Conquistas e Social Media

Estou há pouco mais de uma semana enrolando para fazer este post. Quer dizer, não que isso realmente importe, afinal, este blog (ainda?) não tem um fluxo de visitas grande o suficiente a ponto de pessoas me cobrarem por postagens em dia.

Enfim, vamos ao que interessa! Finalmente temos páginas, tanto no Facebook quanto no Instagram. Para mim, enquanto autor, desempregado, nerd, vagabundo, ocioso e sem vergonha alguma de qualquer um dos atributos aqui listados, isso foi uma grande conquista.

Portanto, se você está lendo isso, muitíssimo obrigado. De verdade.

As páginas seguirão um padrão diferente do que este blog oferece. Tenho postado frases, poemas e devaneios diários, todos bastante curtos, com a simples intenção de trazer alguns sorrisos à tona, ainda que eu nunca saberei de quem serão.

Os textos maiores, por sua vez, continuarão aqui no blog, e tratarei de avisar na página do Facebook sempre que houver algo novo por aqui.

Se quiser escrever um comentário, seja criticando, elogiando, ou simplesmente deixando seu “Olá!”, tenha certeza que vai me deixar muito feliz. Mas, se não quiser, sem problemas.

No mais, creio que isso seja tudo. Ao menos por enquanto.

 

Celso Iombriller Junior
Sempre ocioso, e agora orgulhoso.

Sem Remetente

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Sem Remetente

Minha querida depressão,
Veja, eu não como bem
Desde sexta só vomito
Mas só água, é o que tem.

Cores fracas, riso torto
Coração apavorado
Revivendo o que está morto
Sonhador desesperado.

Pobre dele, bota fé
E ela o faz esperar
Muito errada ela é
Pondo preço em seu amar.

Minha querida ansiedade,
Veja, não me fazes bem.
Desde sexta só me arranho
E me perguntam o que é que tem.

Cores fortes, riso tenso
Esperança é um breu
Revivendo um momento
Que sequer aconteceu

Dono do meu devaneio,
Quinze dias tu me deu
E o meu maior anseio
É acordar com um toque teu

Minha querida depressão,
Eu não sei mais distinguir
O que é real e fantasia,
Se só anseio por dormir.

Dormir fundo, dormir bem
Como quando éramos um
Eu te chamo e tu não vem,
Cinco dias de jejum.

O Nariz Grande

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O Nariz Grande

Eu tenho um nariz grande, e tenho plena consciência disso. Entretanto, determinadas pessoas ainda vêem utilidade em me dizer que eu tenho um nariz grande.

Eu sei que eu tenho um nariz grande, veja bem, e tenho certeza que se você tivesse um nariz grande, você também saberia.

E teria sido chamado de “tucano” na época do colégio.

Enfim.

Será que as pessoas realmente pensam que eu não sei de minhas próprias características quando chegam para mim e dizem “Ei, você tem um nariz grande!”? Quer dizer, ele esteve em meu rosto a vida toda.

Faz sentido que eu saiba que eu tenho um nariz grande. Afinal de contas, é do meu próprio nariz que estamos falando.

Também faz sentido que eu tenha um nariz grande, porque quando meu pai tinha minha idade, ele também tinha um nariz grande. Mas ele, assim como muitas outras pessoas, não era feliz com seu nariz grande, e então ele tornou-o menor.

Não que muitas pessoas tenham narizes grandes, mas é de características peculiares que falo aqui. Coisas que afirmam que você é quem você é, sabe? Mais simples do que parece, e complicam mais do que deveriam.

Eu realmente não me importo quando as pessoas falam sobre meu nariz grande, porque é simplesmente quem eu sou.

Mas muitas pessoas se envergonham de seus narizes grandes, ou lábios grandes, ou mesmo de seu tom de pele. E tais características as tornam tristes.

E muitas outras pessoas são tão orgulhosas de seus narizes a ponto de se ofenderem quando notam o quão grandes eles são.

Me dizer que eu tenho um nariz grande é como chegar para uma garota e dizer “Ei, você é uma garota!”

Talvez meu pai não gostasse de ter um nariz grande, mas eu realmente não me importo com o meu.

Me dizer que eu tenho um nariz grande é como chegar para um cara gay e dizer “Ei, você é gay!”

Na realidade, não faz diferença alguma ter ou não ter um nariz grande. Eu não acho que outras pessoas se importem com meu nariz quando corrigem minhas provas, assistem meus filmes ou, enfim, lêem meus textos.

Me dizer que eu tenho um nariz grande é como chegar para um cara negro e dizer “Ei, você é negro!”

Se eu quero me tornar um músico, dificilmente meu nariz grande será um problema.

Se um cara negro quer se tornar um escritor, dificilmente seu tom de pele será um problema.

Porque no fim das contas, não importa quem você é, mas sim o que você faz.

Se orgulhe incondicionalmente de quem você é.

– Infinitas Boas Idéias

Paixão em Frases

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Paixão em Frases

Numa dessas madrugadas de Sábado pra Domingo,
Respirações ofegantes, tecidos amassados. Nem sinal da luz lá fora, mas eu sei que tu está aqui. Tua cintura, agarro firme, e respiramos no mesmo ritmo. Tudo começa num beijo solene, tímido, e bem dado, molhado, daqueles que tiram o fôlego. Teus lábios amargos, porém únicos, dão sentido à minha existência.

Te trago para mais perto, degusto do teu perfume, te beijo de novo, da orelha ao pescoço, e você retribui. Tuas unhas me extasiam, minhas costas são tuas para desenhar. Um corpo contra o outro, apertado, quase inerte.

O cheiro do teu cabelo. Olhares tímidos, quase envergonhados, sentindo-se culpados, e mais livres do que nunca, como se dialogassem, “Nós fizemos isso mesmo, não é?” E me orgulhei de ter sido cúmplice de seus atos mais verdadeiros.

Naquele momento, minha querida, eu seria capaz de jurar, para ti e para o mundo, que éramos um só.