IV – As Duas Roseiras

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Infinitas Boas Idéias

IV

As Duas Roseiras

Leopold me dizia que preferia viver sozinho.

– Preferia, sim, viver solamente. – Replicava ele às minhas ideias absurdas da época

– Pois, te acho um tolo. – Disse a ele, da forma mais sincera e amigável possível

– E por que diz isso, camarada?! – Indagou ficando na ponta dos pés, da forma com que sempre fazia.

– Acredito em finais felizes. – Eu o disse – E acredito que no mundo há alguém certo para cada um de nós.

– Tu que és um tolo. – Replicou de forma ignorante – Não percebes, camarada, que não há nada de bom em entregar-se a outro?! Pois, este sou eu, e eu me entrego de corpo e alma para as pessoas com quem proseio, e não há uma situação sequer em que isto me foi positivo.

– Não odeie todos os espinhos só porque um deles lhe espetou. – Eu lhe disse, dotado de senso comum.

– Você é quem se deixa espetar por vários espinhos da mesma rosa, meu estimado amigo. – Disse-me sabiamente o pequeno homem – Percebo que gosta de falar em senso comum. Pois bem, entenda: Dar murro em ponta de faca não fura defesa nenhuma que não a sua própria.

– Sua prosa me interessa, admito. – Lhe disse – Prossiga.

– Veja bem. – Ele iniciou novamente, com a voz limpa – Eu já visitei o mundo dos amores e paixões, meu caro, e não deixe-se enganar pelo discurso falacioso de que amor e paixão são coisas diferentes. Eles estão no mesmo mundo, um é a evolução do outro, cativas a paixão e a tornará amor. Entretanto, veja bem, neste mundo há duas grandes roseiras. Uma delas é composta por rosas vermelhas e perfumadas, as mais belas de todos os mundos, e esta roseira estende-se por todo o palanque e é dotado de infinitas rosas maravilhosas. Entretanto, para cada rosa há um bocado de espinhos a serem evitados.

– E as pessoas boas são as rosas, e as pessoas ruins com quem nos relacionamos de forma afetiva são os espinhos? – Aproveitei a pausa para questioná-lo

– Não, confrade, não é assim que funciona. – Me disse como um pai que explica ao filho – As rosas vermelhas são as pessoas com quem nos relacionaremos para o resto de nossas vidas. E essas pessoas possuem sim espinhos que tratarão de nos machucar uma vez que tentemos tocar suas essências. O fato é que não há fragrância divina que faça compensar tocar uma rosa dessas. Contente-se em admirá-las e seu caminho será muito mais certeiro.

– Desgosto deste ponto de vista, meu amigo. – Disse a ele – Faz parecer que as pessoas são objetos.

– Ora, e não são? – Me respondeu de forma irônica – Mas deixe-me prosseguir! A outra roseira, veja bem, é uma roseira curta e singela que tem sua fonte – um vaso tão singelo quanto a própria descrição permite – logo ao lado da fonte da roseira vermelha. Esta segunda, entretanto, não possui espinho algum. Possui apenas um caule curto, que segue certeiro buscando o céu, como todas as outras plantas fazem. O ano todo ela permanece inerte, sem rosa nenhuma que o calhe. Mas quando ocorre algo que não era para ocorrer e o indivíduo é merecedor de tamanha dádiva, esta singela roseira presenteia-o com uma majestosa rosa branca, cujo desabrochar provoca a inveja nas infinitas rosas vermelhas que a observam. Uma rosa cheia e imponente, cujo simples vislumbrar torna todas as outras rosas imperceptíveis e até mesmo irrelevantes. É uma vez em uma vida que se tem o prazer de apreciar uma destas, e para alguns leva mais de uma vida. Ocorre que reles mortais como eu e você muito provavelmente jamais pousaremos nossos olhos numa desta, e esta é a triste realidade.

– Mas pelo que eu entendi… – Tratei de interrompê-lo – …esta explicação toda apenas concorda com meu pensamento de que há finais felizes. Há uma possibilidade.

– Não, confrade, muito pelo contrário. – Frustrou-me – O que passa em nossa cabeça é que a cada rosa que apreciamos possa ser a rosa branca, mas na realidade nunca é e nunca vai ser. Uma vez em uma era eu me entreguei a alguém, e estou aceitando o fato de que não sou digno de uma destas. Espero mesmo é que você seja.

Não haviam mais perguntas após a injeção de realidade provocada por Leopold. O pequeno homem, afinal, possuía grandiosa sabedora, a qual era frequentemente confundida por sua miudês.

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