Saudosa Letargia

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Saudosa Letargia

Às minhas olheiras, fiéis companheiras…

Postado originalmente em: rascunhonopapel.com.br

Trilha Sonora

Letargia (s.f.) é a perda temporária ou completa da sensibilidade e do movimento por causa fisiológica ainda não identificada, levando o indivíduo a um estado mórbido em que as funções vitais estão atenuadas de tal forma que parece estarem suspensas, dando ao corpo a aparência de morte.

PURGATÓRIO
Sempre se inicia com um singelo ruído de fundo. A mente clama por uma trégua, breve que seja, enquanto o subconsciente negocia com o próprio sono. A respiração torna-se pesada, em largas bufadas de suspiros etílicos, e os olhos inchados não mais filtram a meia luz. A cabeça passa a pender para o lado, ao passo em que o corpo se assenta na poltrona rija.

O ruído desbrava minha mente, e se molda em minha sede do impossível. Nos dias bons, ouço risadas. Nos dias ruins, enxergo semblantes, e logo percebo que sou cativo de minhas próprias escolhas. Entretanto, na maior parte dos dias, me encontro no limbo. Um estado da irrealidade localizado no vértice da fatiga, entre a consciência e a inconsciência, onde chamo por memórias que nem sempre me atendem. E, quando atendem, zombam de minha própria imbecilidade.

Luto contra minha própria ansiedade para que não me impeça de visita-la. O sono se faz presente, e traz consigo a esperança, sádica, pronta para me torturar. Antes, a esperança de acordar e saber que tudo não passou de um sonho. Agora, a esperança de vê-la novamente em um de meus poucos sonhos e, com um pouco de sorte, sentir novamente o aroma que se traduz em amor. Estes são os dias bons.

Ah, os dias bons. O ruído torna-se absoluto, e consigo enxerga-la ao fundo. Ela, bonita, e nossos quatro pequenos, todos sorridentes e eufóricos, frutos de nosso amor. Às vezes, ouço também o barulho da praia, sinto a brisa tocar minhas canelas desnudas, e até mesmo o sol, um pouco morno, banhando minha pele. Contento-me com este cenário, na fronteira entre lembrança ou expectativa, e tento degustar de tudo o que ele me dispõe. Antes, chamava por ela, e esperava ouvi-la, que fosse mais uma só vez. Agora, me satisfaço em saber que, ao menos ali, eles ainda esperam por mim.

Ao menos ali, tenho um lar para ser recebido.

Entretanto, infelizmente, eu sempre acordo e, para minha surpresa, ela não está lá. No lugar dela, um copo bem gordo, porém fino, com um blend de whisky e melancolia. Meu estômago inflama, e travo o vômito na garganta. Mais um gole bem dado, e me ponho a escrever, tentando reviver um lado de mim que há muito se foi. O mesmo lado pelo qual ela se apaixonou.

Mais uma folha em branco, e mais um cabeçalho rabiscado.

Minha querida depressão,
Veja, eu não como bem.
Desde sexta só vomito,
Mas só água, é o que tem.”

Por incrível que pareça, depois de todo esse tempo, as pessoas ainda se encantam com minhas escritas. Talvez de forma sádica, banhando-se nas ideias amarguradas de um velho a definhar. Entretanto, ninguém critica ou revisa, mas apenas publicam e me observam deixando-lhes ricos. Já deixei que erros ortográficos e de concordância passassem impunes, de propósito, apenas para testar a competência de meus editores. Entretanto, há um momento na vida de um homem em que seu nome vale mais que a própria competência.

Cores fracas, riso torto
Coração apavorado
Revivendo o que está morto,
Sonhador desesperado.”

Mercenários imundos, estúpidos, iletrados, sádicos, malditos. Esbaldam-se no desgosto de um moribundo. E pensar que já fui como eles, admirando a agonia de autores que me precediam. Tentei botar coração onde todos colocam dinheiro, e acabei me tornando uma fonte de amargura para pessoas sem problemas o suficiente. Sequer param para pensar no que os autores sentiram enquanto vomitavam suas mágoas em folhas de papel. E, qual é o problema, se te render um milhão de compartilhamentos, não é mesmo?

“Minha querida ansiedade,
Veja, não me fazes bem.
Desde sexta só me arranho,
E me perguntam o que é que tem.”

Não, não é bonito. Não é para ser bonito. É um aviso, seus imbecis. É um recado para que não errem como eu errei. Mas não entendem, e jamais entenderão. Pessoas que entortam os lábios para qualquer merda que lhes apresentam em versos. Mal sabem eles que a arte não é um fim, e sim um meio de transmitir sentimentos.

“Cores fortes, riso tenso
Esperança é um breu
Revivendo um momento
Que sequer aconteceu.”

E continuo a transmitir os meus, na expectativa de que, em algum lugar, num quarto escuro, um homem sinta o que estou sentindo, e se prive de fazer a escolha errada. Deus, faça com que ele entenda. Nunca saberei de quem se trata, mas ele fará a coisa certa, e jamais perderá todos que perdi. E, daqui a alguns anos, ele estará feliz e satisfeito, envolto em três gerações abaixo de si, e ele saberá, lá no fundo, que fez a coisa certa.

Dono do meu devaneio,
Quinze dias tu me deu
E o meu maior anseio
É acordar com um toque seu.”

O que eu deveria ter feito, mas não o fiz, e, portanto, estou sozinho.

REDENÇÃO
Imerso em devaneios, sufocado pela própria tristeza, me encontro sentado numa mesa de bar. Um dos ambientes mais depressivos para um meio de semana, penso comigo, com quatro ou cinco gatos pingados afogando suas angústias em copos meio rasos.

Me limito a fitar a mesa à minha frente. Tiro do bolso o papel antes escrito, posiciono a caneta logo abaixo do último verso, e aguardo para registrar parte do que sinto. Entretanto, e talvez felizmente, a virtude não aprecia ambientes como aquele, e eu sempre soube disso. Dessa forma, me ponho a aguardar, sem que o mínimo de atenção seja dada a qualquer murmuro que venha dos outros ali presentes.

E, como esperado, um homem se senta à minha frente.

Levanto os olhos de forma penosa, sem orgulho de minhas olheiras, somente para encontrar uma pequena dose do que já fui.

– Como está a sua mãe? – Digo com certo pesar, e travo o enjoo e minha garganta desgastada.

– Casta, como sempre. – Meu filho responde, e percebo tristeza em sua voz – Se antes ia à igreja todo domingo, hoje é raro quando não faz alguma prece.

Fitei seu queixo afiado, incapaz de olhá-lo nos olhos.

– Belo Deus, o que ela cultua. – Disse com ironia.

– Pai… – Tentou me interromper, mas sem sucesso

– De todos os deuses a serem escolhidos, ela opta por esse maldito vingativo. – Um suspiro de satisfação escapa de minha garganta.

– Deus sabe o que faz, pai. – Respondeu dotado de certeza – Ele não comete erros.

– O livre-arbítrio foi um erro. – Respondi de imediato

– Pai, por favor…

– É a mais pura verdade. – Prossegui – É como dar poder de escolha a um bando de crianças mimadas. Simplesmente ridículo.

Por mais que o tempo tenha passado, e a glória talvez esquecida, eu ainda me orgulhava quando conseguia ironizar algo de forma esperta. Entretanto, a satisfação se esvaia ao lembrar de nossas risadas. Nosso humor era ácido, certeiro, sem rédeas, e apenas nosso.

– Ela nunca saiu com nenhum outro homem depois do senhor. – Tentou me consolar, e retruquei com acidez

– Outro erro. É o que ocorre quando você decide seguir uma doutrina ruim.

– Pai, podemos não entrar nesse assunto…? – Notei desgosto em sua voz. Lambeu o lábio inferior, disposto a tratar daquilo para o que tinha vindo.

– Ela merece alguém que zele por ela, e que a faça feliz.

– Ela não quer nada disso, pai. – Retrucou – E todos nós zelamos por ela o tempo todo. Ela entende que seu propósito nessa vida já foi cumprido…

– Não há propósito na vida. Ninguém existe com um propósito. Ninguém pertence a nenhum lugar, e todos nós vamos morrer. – Sempre fui excelente em dar murro em ponta de faca.

– Não estamos aqui para debater sobre a vida e o universo. – Tirou do casaco um envelope marrom – Eu preciso que o senhor assine.

Me ofendi.

– Por quê? Faz diferença? – Não consegui olhá-lo nos olhos – Já estamos divorciados há anos, e não a vejo há mais tempo do que consigo me lembrar.

Observei-o suspirar profundamente. Numa breve faísca de empatia, me pus no lugar de meu filho, assistindo ao pai se recusar a dar à sua mãe o que lhe é de direito. Agi como os velhos que sempre repudiei. Neste momento, travei o choro à garganta. Cego de orgulho, tentei prosseguir:

– Deixe como está. – A voz chorosa se fez presente – De qualquer forma, eu não tenho muito mais muito tempo.

– Pai, por favor, entenda… – Ele tocou minha mão, e lágrimas surgiram.

– Eu só te peço isso, filho… – Engoli a tristeza, que rasgou minha garganta – Eu já sofri o suficiente. Eu perdi a honra, perdi o respeito dos meus filhos… – Finalmente levantei os olhos, aos poucos, de encontro com os dele – …só não me faça perder a mulher da minha vida.

Ao fita-lo nos olhos, enxerguei-a me observando. A tristeza escapou e, sem sucesso, tentei engolir todo o pesar de uma só vez. Lágrimas brotaram em abundância, e desabei sobre a mão de meu filho caçula.

– Eu ainda a amo. – Engasguei em minhas palavras enquanto sentia o sabor de minhas próprias lágrimas – Amo-a com todas as forças, e de toda minha alma. Diga para ela, por favor.

– Por favor, pai, não torne isso mais difícil do que já está sendo… – Apertou forte minha mão, e olhei de novo para seus olhos.

– Eu errei, filho. – Finalmente admiti, derrotado – Eu joguei tudo fora por prazeres mundanos. Eu sei que errei.

– Ninguém é obrigado a perdoar traições, pai. – A realidade me chocou como um murro certeiro que desloca a mandíbula – Ela não vai voltar atrás.

– Um homem não tem o direito de errar? – Supliquei – Não é possível! Foram infinitos momentos maravilhosos que vivemos juntos!

– E o senhor jogou tudo fora em função de outras mulheres. – Novamente me acertou, e senti meu coração apertar por um breve segundo.

– Eu… eu errei. – Fitei novamente a mesa, envergonhado – Errei onde não deveria ter errado. – Olhei novamente para ele, e me enchi de orgulho – Não consegui ser homem o suficiente, mas sei que vocês serão melhores do que eu.

Observei meu filho engolindo saliva. Sorri para ele, certo de que não me acompanharia no choro, quando lágrimas marcaram sua face.

– Me dê logo o papel. – Ordenei, estendendo a mão esquerda

Ele tirou do envelope os documentos referentes ao divórcio, e me entregou-os em mãos.

Assinei.

– E limpe essas lágrimas. – Disse a ele, devolvendo-lhe os documentos – Homem de verdade não chora.

– É aí que o senhor se engana, papai… – Guardou-os novamente no envelope – Homens de verdade choram sem se preocupar em cobrir o próprio rosto. “Não temos nada a esconder”, é o que o senhor sempre nos ensinou, não é mesmo?

Neste momento, tive a certeza de que, ao menos na criação de meus filhos, eu havia acertado em cheio. Tive orgulho, admito, mas não de mim, e sim do homem que ele havia se tornado.

Voltei novamente minha atenção ao rascunho de antes, com o poema incompleto.

– Posso te pedir uma última coisa?

Agarrei a caneta, posicionei-a logo abaixo da última estrofe, e me pus a escrever.

“Minha querida depressão,
Eu não sei mais distinguir
O que é real e fantasia,
Se só anseio por dormir.”

– Claro. – Me respondeu com um sorriso no rosto – Qualquer coisa.

Um turbilhão de memórias veio à minha cabeça. O primeiro beijo. O doce odor de seus cabelos. Seus olhos abrindo-se lentamente após acordar. Deus, como eu amava observá-la acordar! Momentos infindáveis, lembranças calorosas da perfeição que criamos em nosso próprio universo.

Continuei escrevendo, cuidando para que as lágrimas não borrassem a tinta ainda molhada.

“Dormir fundo, dormir bem
Como quando éramos um.
Eu te chamo, e tu não vem,
Cinco dias de jejum.”

– Você pode entregar isso para ela? – Dobrei o papel e o entreguei com a certeza de que jamais seria visto por olhares diversos.

– Posso. – Tomou o papel de minha mão e prontamente guardou-o no casaco – Claro que posso.

Abracei-o com força, e notei que as pessoas ao redor nos observavam. Algumas contentes, e outras emocionadas. Dei de ombros.

– Você tem os olhos da sua mãe. – Fitei-os profundamente, como que pela primeira vez – E são os mais maravilhosos que eu já vi. – Um sorriso de orgulho se ascendeu na face de meu filho, e, depois de tanto tempo, me senti amado mais uma vez.

A vida é feita de lições, e cabe a nós não repetirmos os erros dos menos afortunados. O amor não deve ser entendido, negociado, digerido ou saciado. O amor deve ser sentido e, com muita cautela, degustado. Creio que, ao menos nesta vida, eu tenha entendido do que se trata o amor, e estou satisfeito com isso.

Apesar de tudo, ainda há uma coisa que me tira o sono.
Dizem que é a última que morre, e, de fato, creio que morrerei bem antes dela própria.

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I – Tardes de Abril

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Doce Fantasia

I

Tardes de Abril

Era fim de tarde quando Belle ouviu passos aproximando-se de sua porta. A luz alaranjada do sol permeava as cortinas entreabertas e projetava-se majestosa em sua parede, avivando a pouca madeira que constava nas bordas de seus quadros ali presentes. A atenção da garota optou por prender-se ao belíssimo espectro de cores que abrangia todo o horizonte, desde as pequenas colinas onde os olhos ainda alcançavam, e até mesmo ao grande freixo que encontrava-se diretamente à frente de sua singela casa, um pouco depois do cercadinho, mas ainda antes dos arbustos de mirtilos.

Os passos, por segundos, tomaram sua atenção, e ela olhou de canto de olho para sua porta. Percebeu que eram curtos e firmes, e concluiu que fossem dos tamancos de sua mãe. Restava-lhe pouco tempo para admirar a paisagem, e ela sabia disso. Assim, deixando que os passos se perdessem nos pensamentos do fundo, tornou a fitar o horizonte tomado pelo crepúsculo.

E, como em todas as tardes, o horizonte fitou-a de volta.

O Nariz Grande

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O Nariz Grande

Eu tenho um nariz grande, e tenho plena consciência disso. Entretanto, determinadas pessoas ainda vêem utilidade em me dizer que eu tenho um nariz grande.

Eu sei que eu tenho um nariz grande, veja bem, e tenho certeza que se você tivesse um nariz grande, você também saberia.

E teria sido chamado de “tucano” na época do colégio.

Enfim.

Será que as pessoas realmente pensam que eu não sei de minhas próprias características quando chegam para mim e dizem “Ei, você tem um nariz grande!”? Quer dizer, ele esteve em meu rosto a vida toda.

Faz sentido que eu saiba que eu tenho um nariz grande. Afinal de contas, é do meu próprio nariz que estamos falando.

Também faz sentido que eu tenha um nariz grande, porque quando meu pai tinha minha idade, ele também tinha um nariz grande. Mas ele, assim como muitas outras pessoas, não era feliz com seu nariz grande, e então ele tornou-o menor.

Não que muitas pessoas tenham narizes grandes, mas é de características peculiares que falo aqui. Coisas que afirmam que você é quem você é, sabe? Mais simples do que parece, e complicam mais do que deveriam.

Eu realmente não me importo quando as pessoas falam sobre meu nariz grande, porque é simplesmente quem eu sou.

Mas muitas pessoas se envergonham de seus narizes grandes, ou lábios grandes, ou mesmo de seu tom de pele. E tais características as tornam tristes.

E muitas outras pessoas são tão orgulhosas de seus narizes a ponto de se ofenderem quando notam o quão grandes eles são.

Me dizer que eu tenho um nariz grande é como chegar para uma garota e dizer “Ei, você é uma garota!”

Talvez meu pai não gostasse de ter um nariz grande, mas eu realmente não me importo com o meu.

Me dizer que eu tenho um nariz grande é como chegar para um cara gay e dizer “Ei, você é gay!”

Na realidade, não faz diferença alguma ter ou não ter um nariz grande. Eu não acho que outras pessoas se importem com meu nariz quando corrigem minhas provas, assistem meus filmes ou, enfim, lêem meus textos.

Me dizer que eu tenho um nariz grande é como chegar para um cara negro e dizer “Ei, você é negro!”

Se eu quero me tornar um músico, dificilmente meu nariz grande será um problema.

Se um cara negro quer se tornar um escritor, dificilmente seu tom de pele será um problema.

Porque no fim das contas, não importa quem você é, mas sim o que você faz.

Se orgulhe incondicionalmente de quem você é.

– Infinitas Boas Idéias

Paixão em Frases

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Paixão em Frases

Numa dessas madrugadas de Sábado pra Domingo,
Respirações ofegantes, tecidos amassados. Nem sinal da luz lá fora, mas eu sei que tu está aqui. Tua cintura, agarro firme, e respiramos no mesmo ritmo. Tudo começa num beijo solene, tímido, e bem dado, molhado, daqueles que tiram o fôlego. Teus lábios amargos, porém únicos, dão sentido à minha existência.

Te trago para mais perto, degusto do teu perfume, te beijo de novo, da orelha ao pescoço, e você retribui. Tuas unhas me extasiam, minhas costas são tuas para desenhar. Um corpo contra o outro, apertado, quase inerte.

O cheiro do teu cabelo. Olhares tímidos, quase envergonhados, sentindo-se culpados, e mais livres do que nunca, como se dialogassem, “Nós fizemos isso mesmo, não é?” E me orgulhei de ter sido cúmplice de seus atos mais verdadeiros.

Naquele momento, minha querida, eu seria capaz de jurar, para ti e para o mundo, que éramos um só.

IV – As Duas Roseiras

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Infinitas Boas Idéias

IV

As Duas Roseiras

Leopold me dizia que preferia viver sozinho.

– Preferia, sim, viver solamente. – Replicava ele às minhas ideias absurdas da época

– Pois, te acho um tolo. – Disse a ele, da forma mais sincera e amigável possível

– E por que diz isso, camarada?! – Indagou ficando na ponta dos pés, da forma com que sempre fazia.

– Acredito em finais felizes. – Eu o disse – E acredito que no mundo há alguém certo para cada um de nós.

– Tu que és um tolo. – Replicou de forma ignorante – Não percebes, camarada, que não há nada de bom em entregar-se a outro?! Pois, este sou eu, e eu me entrego de corpo e alma para as pessoas com quem proseio, e não há uma situação sequer em que isto me foi positivo.

– Não odeie todos os espinhos só porque um deles lhe espetou. – Eu lhe disse, dotado de senso comum.

– Você é quem se deixa espetar por vários espinhos da mesma rosa, meu estimado amigo. – Disse-me sabiamente o pequeno homem – Percebo que gosta de falar em senso comum. Pois bem, entenda: Dar murro em ponta de faca não fura defesa nenhuma que não a sua própria.

– Sua prosa me interessa, admito. – Lhe disse – Prossiga.

– Veja bem. – Ele iniciou novamente, com a voz limpa – Eu já visitei o mundo dos amores e paixões, meu caro, e não deixe-se enganar pelo discurso falacioso de que amor e paixão são coisas diferentes. Eles estão no mesmo mundo, um é a evolução do outro, cativas a paixão e a tornará amor. Entretanto, veja bem, neste mundo há duas grandes roseiras. Uma delas é composta por rosas vermelhas e perfumadas, as mais belas de todos os mundos, e esta roseira estende-se por todo o palanque e é dotado de infinitas rosas maravilhosas. Entretanto, para cada rosa há um bocado de espinhos a serem evitados.

– E as pessoas boas são as rosas, e as pessoas ruins com quem nos relacionamos de forma afetiva são os espinhos? – Aproveitei a pausa para questioná-lo

– Não, confrade, não é assim que funciona. – Me disse como um pai que explica ao filho – As rosas vermelhas são as pessoas com quem nos relacionaremos para o resto de nossas vidas. E essas pessoas possuem sim espinhos que tratarão de nos machucar uma vez que tentemos tocar suas essências. O fato é que não há fragrância divina que faça compensar tocar uma rosa dessas. Contente-se em admirá-las e seu caminho será muito mais certeiro.

– Desgosto deste ponto de vista, meu amigo. – Disse a ele – Faz parecer que as pessoas são objetos.

– Ora, e não são? – Me respondeu de forma irônica – Mas deixe-me prosseguir! A outra roseira, veja bem, é uma roseira curta e singela que tem sua fonte – um vaso tão singelo quanto a própria descrição permite – logo ao lado da fonte da roseira vermelha. Esta segunda, entretanto, não possui espinho algum. Possui apenas um caule curto, que segue certeiro buscando o céu, como todas as outras plantas fazem. O ano todo ela permanece inerte, sem rosa nenhuma que o calhe. Mas quando ocorre algo que não era para ocorrer e o indivíduo é merecedor de tamanha dádiva, esta singela roseira presenteia-o com uma majestosa rosa branca, cujo desabrochar provoca a inveja nas infinitas rosas vermelhas que a observam. Uma rosa cheia e imponente, cujo simples vislumbrar torna todas as outras rosas imperceptíveis e até mesmo irrelevantes. É uma vez em uma vida que se tem o prazer de apreciar uma destas, e para alguns leva mais de uma vida. Ocorre que reles mortais como eu e você muito provavelmente jamais pousaremos nossos olhos numa desta, e esta é a triste realidade.

– Mas pelo que eu entendi… – Tratei de interrompê-lo – …esta explicação toda apenas concorda com meu pensamento de que há finais felizes. Há uma possibilidade.

– Não, confrade, muito pelo contrário. – Frustrou-me – O que passa em nossa cabeça é que a cada rosa que apreciamos possa ser a rosa branca, mas na realidade nunca é e nunca vai ser. Uma vez em uma era eu me entreguei a alguém, e estou aceitando o fato de que não sou digno de uma destas. Espero mesmo é que você seja.

Não haviam mais perguntas após a injeção de realidade provocada por Leopold. O pequeno homem, afinal, possuía grandiosa sabedora, a qual era frequentemente confundida por sua miudês.